Argel - Um temporal de granizo amassou pelo menos 4 mil carros em Argel e levou à capital argelina 80 brasileiros especializados em desamassar veÃculos sem danificar a pintura. No Brasil, esses profissionais também são conhecidos como martelinhos de ouro, porque o trabalho manual é feito com ferramentas de ferro e borracha e não deixa marcas.
O grupo chegou a Argel há quatro dias para consertar os estragos provocados pela natureza no inÃcio deste ano e trabalha durante todo o dia, pois o serviço deve estar concluÃdo em até três meses, quando vence o visto de trabalho concedido pela Embaixada da Argélia, de acordo com a Agência Brasil.
Europa
Alguns dos trabalhadores também já prestaram serviço em outros paÃses. A demanda maior é para a Europa, devido à s grandes tempestades de granizo, especialmente durante o inverno, mas também eles já foram chamados para trabalhar na Argentina e Estados Unidos, segundo Paulo Alves, de 28 anos, que desamassa carros há 13 anos e há cinco anos se mudou para Portugal, onde criou uma empresa no setor.
Reportagem na Rede globo de televisão aguça brasileiros a trabalharem fora do paÃs atrás de chuva de granizo!
A previsão diz que o sol vai brilhar em toda parte. Tempo ruim para um caçador de nuvens profissional. O empresário Paulo Alves não se interessa por qualquer nuvem. Ele passa horas diante do computador buscando uma chuva de pedras. O gelo que cai do céu é o ganha-pão desse brasileiro, que há sete anos vive
''Um profissional pega um carro todo picado de granizo de manhã, e, no fim da tarde, o carro está novo, como se nada tivesse acontecido'', conta Paulo que trabalha como mestre do martelinho de ouro em Portugal.
Onde só se vê destruição, ele enxerga uma oportunidade. ''Vem uma chuva de granizo com bolas dos tamanhos de bolas de golfe que danificam os carros da cidade inteira. Imagina um dono de lojas com todos seus carros para vender, e eles ficam todos picotados. Quando ele vai procurar as oficinas, elas estão lotadas, e ele não consegue arrumar os carros. Então, essa é uma profissão que veio resolver esse tipo de problema'', explica Paulo.
É para fazer chover na própria horta que tem muita gente aprendendo a técnica do martelinho. Tony que tem uma oficina na zona sul de São Paulo é um deles. ''No meu bairro
Seu Nelson vai dando marteladas e incentivos aos alunos. A profissão deu ao professor tudo que ele tem. ''Eu não fiquei rico, mas dá para viver bem. Criei e formei minhas filhas. Estou feliz. O maior prazer da minha vida é passar essa técnica adiante'', revela Nelson.
É com muito charme que a aluna Karla Maria Alle vai se tornando uma das poucas mulheres a aprender os segredos do martelinho. Ela é húngara e vive na Austrália. Foi lá que conheceu o brasileiro João Batista Tolino. Os dois vieram juntos ao Brasil com seu Nelson.
''Ela está ficando boa. Ela vai embora para trabalhar lá. Ela leva jeito, porque é muito calma e muito tranquila. Já o marido não gostou muito'', comenta o professor.
O aposentado João Batista Tolino, pelo jeito, vai ficar na administração, e Karla com a execução do serviço na oficina de martelinho que pensam em montar em Sidney, na Austrália.
''Que eu saiba não existe isso lá, porque eu andei pesquisando com as pessoas que eu conheço lá, e ninguém conhecia isso'', conta João.
Karla se entusiasma com o papel de pioneira. ''A tecnologia é aqui do Brasil, não tem na Hungria ou na Austrália. Acho que vai ser um bom negócio por lá'', diz a aluna.
Ela treina diariamente sob o olhar exigente do mestre. ''Às vezes, eu até choro e penso que estou fazendo 100% certo, e vem o seu Nelson e fala que não está bom'', revela Karla.
Enquanto a Austrália espera o charme da húngara treinada aqui no Brasil, Portugal já conhece o globalizado martelinho brasileiro.
''Eu costumo brincar com a minha famÃlia que eu sou turista na minha casa. Eu realmente fico muito tempo fora'', confessa o empresário do martelinho de ouro em Portugal Paulo Alves.
E a casa dele fica em uma cidade que recebe muitos turistas. Eles querem ver outra ''casa'': o Palácio de Mafra, construÃdo com o ouro do Brasil. O rei dom João V não conseguia ter filhos. Quando a primeira princesa nasceu, ficou tão feliz que mandou erguer a obra: metade palácio; metade convento. O último rei saiu do palácio há quase cem anos. Mas a história ainda parece estar presente nas paredes e no sossego da praça.
Em um lugar tão ligado ao passado, Paulo chegou levando uma profissão do futuro. ''Nós temos o martelinho é simples, que não tem nada de especial. Isso é o que assusta os clientes. Quando você vai bater na chapa, o cliente põe a mão na cabeça'', diz Paulo.
A maioria dos portugueses nunca tinha ouvido falar.
''Às vezes, nós temos dúvida. Eles vão bater com o martelo na chapa, e a pintura não vai marcar? Só vendo para acreditar'', afirma o dono de loja de carros Norbert Bento.
''Na primeira vez, eu disse que não ia ficar bom, mas ficou'', reconhece o funcionário da loja LuÃs Cortes.
Paulo levou para a Europa todos os avanços do martelinho. Hoje em dia, as ferramentas são fabricadas nos Estados Unidos - mais uma prova de que acreditar nessa profissão foi uma tacada certa.
''As ferramentas passam despercebidas, como se fossem tacos de golfe'', brinca o brasileiro.
Apesar de suar a camisa, Paulo não é um esportista. Ele se considera um artista, com o olhar sensÃvel, as mãos habilidosas, a paciência de quem busca a perfeição. Às vezes, só ele vê as reentrâncias, as curvas e as saliências que os nossos olhos não conseguem enxergar.
''Eu falo para as pessoas que isso é como pintar um quadro. Você pode fazer curso de pintar quadro, mas, se você não tiver o dom, não adianta. Você não vai ser um artista'', diz Paulo.
Pintor, escultor ou artista de circo? Com todos eles, Paulo tem algo
''É engraçados, porque as pessoas levam o carro para arrumar. Enquanto a gente está arrumando, elas ligam para os parentes e para os amigos, convidando para verem um gajo que tira mossa do carro sem pintar'', conta Paulo.
O gajo é ele. E mossa é como os portugueses chamam os pequenos amassados no carro. ''Fica um espetáculo'', elogia dono de loja de carros Norbert Bento.
Aos poucos, as pessoas foram deixando de se assustar, e o trabalho de Paulo foi ficando cada vez mais reconhecido. A fama desse artista dos martelos chegou a regiões tão distantes que a oficina móvel não consegue chegar. Esse brasileiro, agora, viaja pelo mundo perseguindo nuvens em lugares cada vez mais distantes.
''Vou para Alemanha, Holanda, Bélgica, Espanha, Argélia, mas já fizemos trabalha na Espanha e no norte de Portugal'', conta o brasileiro.
Paulo não vai sozinho. Virou empresário e dá emprego para muita gente. ''Muitas vezes, eu preciso deslocar 50 profissionais do Brasil para cá, para trabalhar por toda a Europa, no prazo de uma semana ou dez dias, no máximo. Quando eu fecho um contrato, tenho que colocar o pessoal para trabalhar de imediato'', diz Paulo.
Mas ainda existe um grande problema: a profissão criada no Brasil ainda não é reconhecida pelas leis internacionais.
''É muito difÃcil explicar para os órgãos competentes que eu tenho que trazer os profissionais e que eles vão trabalhar só por três meses e vão voltar para o paÃs de origem'', afirma Paulo.
As barreiras são muitas, mas para quem tem São Pedro como único chefe, o trabalho tem algumas vantagens. Dia de céu azul na Europa é dia de folga. Todos vivem o dia muito intensamente, porque sabem que a qualquer momento uma nuvem carregada de gelo pode acabar com a brincadeira.
Fonte: Globo Repórter
Graziela Azevedo São Paulo
Pedro Bassan Mafra (Portugal)